quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Por que é tão difícil nos livrarmos dos maus hábitos?

Neurologistas explicam o papel do cérebro nessas atitudes e mostram o caminho para aposentar hábitos prejudiciais à saúde

Cérebro torna ainda mais difícil largar o cigarro e se alimentar corretamente, diz especialista

O novo ano mal começou e você já está achando difícil cumprir todas aquelas resoluções de jogar as guloseimas no lixo, sair do sofá e parar de fumar. Existe uma razão biológica que faz com que seja tão difícil abandonar os maus hábitos – eles ficam enraizados em nossas mentes.

“Você está lutando contra o poder de uma recompensa imediata”, disse Nora Volkow, diretora do Instituto Nacional do Abuso de Drogas e autoridade nos caminhos prazerosos do cérebro.

É como fazer uma escolha entre comer brócolis ou calda de chocolate: o fato do chocolate ser delicioso derrota o conhecimento de que optar por vegetais trará uma eventual perda de peso como recompensa.

“Como criaturas, todos nós somos determinados por estes mecanismos neurológicos, de dar maior valor a uma recompensa imediata do que a algo que vai demorar um pouco mais”, disse Volkow.

Mas, como essa pequena porção de felicidade se transforma em um hábito envolve um componente químico ligado à sensação de prazer, a dopamina. A mesma condiciona o cérebro a sempre querer a recompensa – e cada vez reforça mais a conexão – principalmente ao receber a dica correta do ambiente.

As pessoas costumam superestimar a habilidade de resistir às tentações que os cercam, sabotando assim tentativas de livrar-se dos maus hábitos, disse Loran Nordgren, psicólogo experimental e professor assistente da Northwestern University's Kellogg School of Management.

“As pessoas têm essa presunção de autocontrole, essa crença de que podem lidar com mais do que realmente conseguem”, disse Nordgren, que estuda a luta de braço entre a força de vontade e a tentação.

Em um experimento, ele analisou se pessoas que fumam muito podiam assistir a um filme que romantiza o hábito – chamado “Coffee and Cigarettes” – sem dar uma tragada. Eles seriam gratificados de acordo com o nível de tentação: conseguiriam assistir o filme sem acender um cigarro? Ou manter o maço sobre a mesa? Ou eles precisariam deixá-lo em um outro cômodo?

Os fumantes que haviam previsto resistir às muitas tentações se mostraram mais propensos a manter o cigarro sem acende-lo – mas também mais propensos a acender o cigarro do que aqueles que conseguiam manter o maço próximo, disse Nordgren. Agora ele está começando a estudar como os dependentes de drogas em recuperação lidam com as tentações do mundo real. Mas as tentações podem ser mais traiçoeiras do que o proximidade com que estão à mão. Outras pesquisas já demonstraram que mulheres não abandonam cigarro nem o álcool na gestação.

Hábitos alimentares
Você sempre come uma coisinha em frente à TV? Saiba que uma região cerebral rica em dopamina chamada striatum memoriza rituais e rotinas relacionadas ao recebimento de recompensas, explica Volkow. Estas dicas ambientais acabam fazendo com que o striatum tenha alguns comportamentos quase que automaticamente.

Mesmo cientistas que reconhecem isso podem cair na armadilha. “Eu não gosto de pipoca. Mas toda vez que vou ao cinema, tenho que comer pipoca. Isso é fascinante!”, disse Volkow.

Muito do que os cientistas sabem sobre o papel da dopamina na formação de hábitos é proveniente do estudo da dependência ao álcool e às drogas, mas ela exerce um papel fundamental também em hábitos mais comuns, especialmente em comer em excesso.

Na verdade, Volkow diz que a dopamina é indispensável para a formação de hábitos que relacionam a ação a uma recompensa.

Um movimento para recompensar as pessoas por mudanças de comportamento pode explorar tal conexão, da mesma forma como algumas empresas oferecem a seus funcionários adiantamento de salário ou descontos em seguros para que os mesmos adotem bons hábitos.

Ainda não está claro como um incentivo financeiro funciona como uma recompensa. Em um experimento, funcionários da General Electric receberam até US$750 para abandonar o hábito de fumar, o que praticamente triplicou o número de pessoas que conseguiram fazê-lo, disse o Dr. Kevin Volpp, diretor do Centro de Saúde e Incentivos da Universidade da Pensilvânia.

Não houve diferença em um estudo semelhante que ofereceu dinheiro pela perda de peso – e as tentações ambientais podem ajudar a explicar os diferentes resultados.

Está ficando difícil fumar em público, mas “cada vez que saímos na rua, tem uma infinidade de comidas baratas, cheias de gosto e calorias”, disse Volpp.

Independentemente da forma como a recompensa a comportamentos acaba se esgotando, os pesquisadores dizem que existem algumas medidas que podem ajudar a contrapor o fato do cérebro não se desvencilhar de maus hábitos:

- Repita, repita, repita o novo comportamento – a mesma rotina no mesmo horário do dia. Resolveu praticar exercícios? Fazer isso no mesmo horário a cada manhã, ao invés de tentar encaixar a prática em diferentes horários do dia, faz com que o striatum reconheça o hábito de forma que se você não o fizer, vai se sentir péssimo, diz Volkow, o neurocientista que também adora correr.

- O exercício em si aumenta os níveis de dopamina, então o nosso cérebro acaba recebendo a sensação de bem-estar mesmo se os músculos protestam.

- Recompense a si mesmo com algo que realmente deseja, enfatiza Volkow. Conseguiu manter a prática de exercícios a semana toda? Seguiu a dieta? Compre um livro, um jeans, ou vá a um bom restaurante – o que talvez seja mais seguro do que um pacote de biscoitos, pois o preço inibe a quantidade.

- O estresse pode reativar o sistema de maus hábitos. “Vemos pessoas no aeroporto que vão comer imediatamente depois que o vôo é cancelado”, ressalta Volkow.

- E corte os rituais relacionados a seus maus hábitos. Nada de comer em frente à TV, de jeito nenhum. Nordgren diz: “O que devemos ter em mente é: ‘O que existe ao meu redor que ocasiona tal comportamento? ’ Temos de nos resguardar contra essas ameaças”.

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Fonte: The New York Times | 06/01/2011 13:00

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